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Bruno investigava elo entre pesca predatória no AM e prefeitura

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Bruno entoando música indígena vira símbolo de sua luta
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Bruno entoando música indígena vira símbolo de sua luta

O indigenista Bruno Pereira —  morto em 5.jun.2022 junto com o jornalista britânico Dom Phillips, no vale do Javari (AM)  — estava mapeando as ramificações na prefeitura de Atalaia do Norte (AM) do grupo envolvido em atividades ilegais de caça e pesca predatórias na Terra Indígena (TI) do Vale do Javari. O levantamento vinha sendo feito há pelo menos dois meses em parceria com ativistas ambientais e com a União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja).

A morte de Dom Phillips foi a quinta incluída no Programa Tim Lopes, da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), que investiga a morte de jornalistas durante o exercício profissional. Dom acompanhava o indigenista em uma expedição pelo Vale do Javari, pois estava escrevendo um livro sobre como salvar a Amazônia, em que fazia referência a violações de direitos humanos na região.

Embora essa não fosse uma atribuição do indigenista, Bruno tinha o hábito de fazer investigações paralelas desde que começou a trabalhar na coordenação da Fundação Nacional do Índio (Funai) na região. Em 2013, ele mapeou um grupo de comerciantes do município envolvido na retenção de cartões de indígenas beneficiados por programas assistenciais, dentre eles o Bolsa Família.

O levantamento minucioso listava uma rede de comerciantes, com seus respectivos estabelecimentos identificados por georreferenciamento. O relatório foi encaminhado ao Ministério Público Federal e à Polícia Federal, resultando em uma grande operação policial. Entre os citados no levantamento estava Dênis Linder Rojas de Paiva, dono da única lotérica da cidade. Atualmente, Paiva (União Brasil) é o prefeito de Atalaia do Norte.

Durante a operação, uma centena de cartões em nome de indígenas de cinco etnias foi apreendida no estabelecimento de Paiva e de outros comerciantes locais. O ponto de partida da investigação foram os relatos de vítimas dos grupos étnicos Kulina, Marubo, Kanamari, Matis e Mayorona. Eles eram levados a entregar os cartões como garantia para receber os valores a que tinham direito.

Alguns dos comerciantes cobravam taxas dos indígenas, diminuindo assim o valor a receber e, consequentemente, o poder de compra das vítimas. Representante da Univaja em Manaus, Yura Ní-Nawavo Marubo lembra que, na época, os comerciantes diziam que a medida era para evitar calotes. Alguns indígenas pegavam alimentos fiado e pagavam quando os benefícios eram liberados pelo governo. A versão é contestada pelo indígena. Apesar da repercussão, nenhum comerciante foi condenado na Justiça.

Na atual investigação, também iniciada a partir de denúncias de indígenas, Bruno Pereira teria identificado o envolvimento de um secretário municipal e de ao menos três servidores nomeados pelo prefeito na invasão da TI para pesca e caça predatórias. Um deles é parente de Amarildo da Costa Oliveira, o Pelado, preso por suspeita de ter participado dos assassinatos do indigenista e do jornalista Dom Phillips.

Bruno recebia as informações dos indígenas sobre o movimento dos invasores na TI do Vale do Javari. Geralmente eram apenas apelidos, como Caboclo, Sirinho e Guedão. A partir daí, o grupo conseguiu identificar alguns dos servidores suspeitos, incluindo um secretário da administração municipal. Diferentemente das investigações que comandou sobre os cartões do Bolsa Família, desta vez o indigenista não estava investido da proteção do cargo de coordenação na Funai. Estava mais exposto.

Sob a condição de anonimato, o colaborador do indigenista em entrevista exclusiva à Abraji deu detalhes sobre a atuação dos envolvidos na invasão da Terra Indígena para a caça e a pesca predatórias. Pirarucus e tracajás são as espécies mais valorizadas nesse mercado clandestino, mas o grupo também coleta ovos dessa espécie de cágado e caça mamíferos de médio porte, como a anta e o queixada, chamado de porcão pelos indígenas.

Chefe do grupo

Amarildo Oliveira, o Pelado , é citado como o chefe local do principal grupo de invasores da Terra Indígena. Ele pertence a uma família de ribeirinhos que vive às margens do rio Itacoaí, nas vilas de São Rafael e São Gabriel, localizadas a cerca de 26 quilômetros da entrada do Vale do Javari. Um território de 85 mil quilômetros quadrados, onde vivem 26 diferentes grupos étnicos, 19 deles isolados. O acesso de não indígenas à região é proibido, bem como qualquer atividade de pesca, caça, extração de madeira ou de minerais.

Embora tenha uma casa na Vila de São Gabriel, Pelado também tem residência em Benjamin Constant, município vizinho de onde partem as voadeiras para Tabatinga, na tríplice fronteira do Brasil com o Peru e a Colômbia. É na margem peruana do rio Javari à frente de Benjamin Constant que fica Islândia, onde vive Rubens Villar Coelho, o Colômbia. Ligado ao narcotráfico, ele financia a pesca e a caça predatórias.

Pelado, segundo a fonte ouvida pela Abraji, atuava como elo nessa cadeia de economia ilegal, cooptando pescadores nas comunidades ribeirinhas das duas cidades para expedições que passavam até 15 dias na TI. Dessa forma, Pelado garantia um constante fluxo de mercadorias ao narcotraficante, que as enviava para as cidades de Letícia, na Colômbia, e Santa Rosa de Yavari, no Peru. Nos países vizinhos, o quilo do pirarucu pode ser negociado por até R$ 29 (US$ 6). Um tracajá não sai por menos de R$ 100 (US$ 20). Uma dúzia de ovos desse quelônio é vendida por até R$ 30 (US$ 6).

As expedições de pesca e caça na TI são feitas em voadeiras com capacidade para transportar até duas toneladas. O financiador custeia o combustível, o gelo e o sal usados para acondicionar os animais mortos e até mesmo a compra de motores. Os grupos formados por até seis pescadores costumam ocultar as embarcações maiores em igapós, próximos à Terra Indígena de onde partem em canoas de madeira para não despertar a atenção dos fiscais, sobretudo, no período em que o indigenista Bruno Pereira coordenava o trabalho.

Rígido no cumprimento da lei, ele costumava impor prejuízos a essa cadeia de economia ilegal. Segundo o ativista entrevistado pela Abraji, em média, o financiamento de uma expedição de grande porte pode custar de R$ 10 mil (US$ 2 mil) a R$ 20 mil (US$ 4 mil), garantindo na ponta um lucro quatro vezes maior. Contudo, além da apreensão dos peixes e quelônios, Bruno também danificava embarcações e seus motores, aumentando mais as perdas do grupo criminoso e a fúria dos predadores.

Para a fonte ouvida pela Abraji, não há dúvida de que o assassinato do indigenista está relacionado à atuação rígida do ex-coordenador da Funai no enfrentamento às atividades predatórias do grupo criminoso. Ele cita como exemplo a execução de Maxciel Pereira dos Santos, em 6.set.2019. Ex-colaborador da Funai, onde também costumava trabalhar com o indigenista, Santos foi morto com dois tiros na nuca enquanto pilotava sua moto na Avenida da Amizade, a via que liga a cidade brasileira de Tabatinga a Letícia, na Colômbia. O assassinato aconteceu duas semanas depois de Maxciel ter apreendido uma embarcação carregada com produto de caça e pesca, avaliada em R$ 100 mil (US$ 20 mil). Quase três anos depois, o crime não foi elucidado.

O ativista conta que Bruno Pereira vinha fornecendo informações ao jornalista Dom Phillips sobre as relações suspeitas envolvendo pescadores ilegais com o narcotráfico e políticos da região. Dom estava escrevendo um livro sobre a TI do Vale Javari.

Família unida

As investigações da Polícia Federal indicam que Pelado articulou em família a execução do ambientalista, que vinha acompanhando o jornalista britânico em uma nova etapa de apuração para o livro. Na manhã de 5.jun.2022, Bruno teria um encontro, às 6h, com Manoel Vitor Sabino da Costa, na vila São Rafael. Mais conhecido como Churrasco, o líder dos pescadores da localidade é tio de Pelado.

Bruno tentava conseguir o apoio de Churrasco para implementar a atividade de manejo de pirarucu na vila São Gabriel, onde vivem a mãe e três irmãos de Pelado. O clã exerce liderança entre os demais moradores, mas é contrário ao manejo, que permite a pesca do pirarucu duas vezes ao ano, nos lagos monitorados. Pelado não aceitava negociar com Bruno.

Naquela manhã, quando chegaram a São Rafael, Bruno e Dom não encontraram Churrasco. Ele não estava na vila. Depois de tomarem café na casa de um dos pescadores, eles saíram da vila em direção a Atalaia do Norte, onde teriam uma reunião. No percurso pelo rio Itacoaí eles passaram à frente da casa de Oseney da Costa Oliveira, o dos Santos, irmão de Pelado.

A casa grande, erguida sobre palafitas, fica três quilômetros depois da vila São Gabriel, reduto do clã, e um pouco antes de um trecho onde o rio tem duas curvas que se assemelham a um “s”. Os investigadores acreditam que a perseguição ao barco usado pelo indigenista tenha sido iniciada naquele ponto. Pelado estava em sua embarcação, com um motor mais potente que o de Bruno.

É nesse trecho que os relatos de Pelado e do pescador Jefferson Lima da Silva passam a coincidir. Embora apresentem algumas contradições, ambos admitiram ter atirado contra Bruno e Dom logo após a primeira curva. Tudo indica que eles foram, literalmente, caçados. Os pescadores usavam espingardas calibre 16, uma delas com munição modificada, que geralmente é empregada na caçada a antas, queixadas e onças.

Nesse tipo de munição, os balins de chumbo são derretidos para formar uma bala maior, mais consistente, que é recarregada no cartucho. Assim, quando disparada, não há fragmentação. Bruno pilotava o barco e foi atingido nas costas, perdendo o controle. Nesse instante, a embarcação deu uma guinada à direita, entrando numa área de vegetação, um igapó. A perícia sugere que logo em seguida Bruno e Dom foram atingidos por disparos no tórax. Retirados do barco e arrastados à margem, o indigenista levou um tiro no olho direito.

A partir daí, os policiais tentam reunir as peças para esclarecer a atuação de cada envolvido nas mortes, na ocultação do barco de Bruno e no esquartejamento das vítimas. Já se sabe que os corpos foram levados em canoas ao outro lado da margem do rio, numa área que pode ser considerada o quintal de Oseney, o irmão que nega participação no crime. A partir desse ponto, os remanescentes humanos de Bruno e Dom foram arrastados por três quilômetros e meio, mata adentro, e enterrados em uma vala.

Até o dia 1.jul.2022, a equipe da Polícia Federal coordenada pelo delegado Domingos Sávio vai realizar a reconstituição do crime para tentar definir a participação de cada um dos suspeitos no duplo assassinato . Há suspeita de que outros parentes de Pelado e Oseney tenham participado do processo de ocultação dos corpos, que teriam sido manuseados como caça.

No dia 24.jun.2022, os policiais federais estiveram nas vilas São Gabriel e São Rafael, onde revistaram as casas de Churrasco, da mãe e de outros três irmãos de Pelado. Amparados por mandados de busca e apreensão, eles apreenderam quatro serrotes, dois facões e uma motosserra, além de duas canoas, e uma corda em que foram detectadas evidências de sangue por meio do uso de luminol.

As embarcações foram levadas a um galpão em Atalaia do Norte, onde os peritos trabalham no recolhimento de digitais e tecido epitelial. Os investigadores se surpreenderam com a descoberta de evidências que colocam a matriarca do clã de ribeirinhos na cena do crime, que teria sido premeditado. As evidências foram encaminhadas ao laboratório de análises da PF, em Brasília.

CSI indígena

O trabalho técnico da PF se somou à participação ativa dos indígenas da TI do Vale do Javari nas buscas pelos corpos de Bruno e Dom. Antes da chegada da polícia, os representantes da Univaja soaram o alerta sobre o desaparecimento da dupla. Passava pouco das 9h do domingo, dia 5.jun.2022. É importante ressaltar que o fuso horário em Atalaia do Norte é de menos duas horas em relação ao horário de Brasília. Logo em seguida, eles reuniram informações de que vários integrantes da família de Pelado tinham ido à casa Oseney naquela manhã.

A partir daí, o nome de Amarildo logo figurou como o principal suspeito diante do histórico de ameaças feitas pelo pescador ao indigenista. Foram os parentes da etnia Matis que localizaram o ponto onde os assassinos retiraram terra num trecho da mata fechada para encher sacos e afundar a embarcação usada pelas vítimas. A partir da descoberta, a PF delimitou a área de busca. O que acabou sendo confirmado pelo também pescador Jefferson. Os indígenas também descobriram a mochila com roupas de Dom no igapó. Não havia nenhum notebook na bolsa, mas as roupas eram mesmo do jornalista.

Aliados de Bruno na investigação que buscava reunir provas das ramificações de Pelado com o narcotraficante Colômbia e servidores de Atalaia do Norte, os indígenas da Univaja temem ter o mesmo destino do indigenista e do jornalista britânico logo que a polícia termine as investigações. No dia 25.jun.2022, apenas três jornalistas permaneciam na região.

A equipe da Abraji enviou mensagens por WhatsApp ao telefone usado pelo prefeito Dênis de Paiva e ao e-mail do gabinete para ouvir sua versão sobre a suspeita levantada na investigação de Bruno, mas não obteve resposta. Paiva passou a última semana em Manaus, segundo sua assessoria, tentando recursos para o município. Na cidade, entretanto, o comentário é de que ele teria ido ao festival de Parintins ver a disputa dos bois Garantido e Caprichoso.

Programa Tim Lopes

Coordenado pela jornalista e ex-presidente da Abraji Angelina Nunes, o Programa Tim Lopes incluiu a morte do britânico Dom Phillips na lista de assassinatos de jornalistas e comunicadores acompanhada pela Abraji e parceiros do programa, que é financiado pela Open Society Foundations. O programa leva o nome de Tim Lopes, o repórter da Globo assassinado por traficantes no Morro do Alemão, no Rio de Janeiro, há 20 anos. Desde que o programa foi criado, em 2017, este é o quinto caso de homicídio de profissional no exercício de seu trabalho acolhido pelo projeto.

O primeiro trata do radialista Jefferson Pureza, de 40 anos, morto na noite de 17.jan.2018, com três tiros no rosto, quando descansava na varanda de sua casa. O crime ocorreu em Edealina, interior de Goiás. Segundo os depoimentos que constam do inquérito, o assassinato foi negociado por R$ 5 mil e um revólver calibre 38. Seis acusados foram presos. Os três adolescentes envolvidos no crime cumpriram medidas socioeducativas e foram liberados meses depois. O dono do lava-jato onde aconteceu a negociação do crime foi condenado a 14 anos. No entanto, foram absolvidos o vereador apontado como mandante e o seu caseiro, que apresentou os adolescentes ao político. A acusação recorreu e pediu novo julgamento.

A morte do radialista Jairo de Souza, de 43 anos, assassinado ao subir a escadaria que dá acesso à Rádio Pérola FM, no dia 21.jun.2018, entrou como o segundo caso. O crime ocorreu em Bragança, no Pará, quando Jairo chegava ao trabalho para apresentar seu programa matinal “Show da Pérola”, que ia ao ar das 5h às 9h. Ele foi baleado com dois tiros depois de passar por um portão e subir alguns degraus da escadaria. Segundo investigação policial, a ordem de execução partiu de um grupo de extermínio composto por dez homens e teria custado R$ 30 mil. Um vereador foi acusado de ser o mandante, mas ainda não houve julgamento. Eles foram indiciados e, depois de vários recursos, aguardam o julgamento em liberdade.

O terceiro caso é o do jornalista Lourenço (Léo) Veras, de 52 anos, assassinado na noite de 12.fev.2020, com 12 tiros, quando jantava com sua família, no município paraguaio de Pedro Juan Caballero, que faz fronteira com a cidade de Ponta Porã (MS). Veras noticiava a disputa do narcotráfico na região e já havia recebido ameaças de morte. O crime ainda está sob investigação do Ministério Público e da polícia paraguaia. A promotoria denunciou um suspeito à Justiça, mas não houve julgamento.

A morte do blogueiro Givanildo Oliveira, de 46 anos, na noite de 7.fev.2022, em Fortaleza, é o quarto caso do programa. As investigações mostraram que sua morte foi motivada pela publicação de uma nota, em seu portal Pirambu News, sobre uma operação policial que resultou na prisão de um traficante do Comando Vermelho (CV), que atuava na área de Areia Grossa. As investigações continuam em andamento.

*Enviados especiais do Programa Tim Lopes a Atalaia do Norte (AM).

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Fonte: IG Nacional

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Após 6 meses, Petrópolis tem desaparecidos e vítimas aguardam auxílio

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Morro da Oficina, em Petrópolis local mais atingido pela enchente há um mês
Tomaz Silva/Agência Brasil – 14.03.2022

Morro da Oficina, em Petrópolis local mais atingido pela enchente há um mês

Quase seis meses após a tragédia que provocou a morte de 234 pessoas em Petrópolis, na Região Serrana do Rio, Rafaela Braga ainda espera pelo resultado de um exame de DNA, que pode identificar o corpo do filho Pedro Henrique Braga, de 8 anos. Pedrinho é uma das três vitimas ainda desaparecidas na cidade. Mãe e filho estavam em um dos ônibus arrastados pela enxurrada na Rua Coronel Veiga no dia 15 de fevereiro.

A coleta de material para o exame de DNA aconteceu em março, quando um corpo com características de um menino foi encontrado no Rio Piabanha, a quase 10 quilômetros do local em que os ônibus afundaram nas águas.

Mais de quatro meses depois, o resultado que pode pôr fim à dolorosa espera da mãe permanece sem prazo para sair.

“É uma ferida que não fecha. Só quero conseguir dar um enterro digno para o meu filho. Lembro, todos os dias, dele em cima do ônibus gritando por socorro e do momento em que o ônibus afundou e a enxurrada levou o Pedrinho. A água estava turva, nós afundamos, e eu o perdi. Pensei que fosse morrer também”, conta Rafaela, explicando que a informação que recebeu é de que a demora no resultado do DNA ocorre porque apenas um laboratório faz a análise do material no estado.

A Polícia Civil informou ao GLOBO que o tempo para o resultado de exame de DNA está diretamente ligado a variáveis do cruzamento de materiais genéticos e à complexidade da situação de cadáveres e despojos.

A dor de Rafaela é a mesma de parentes de outros dois desaparecidos: Heitor Carlos do Santos de 61 anos, que também estava em um dos ônibus; de Lucas Rufino, de 21 anos, que foi soterrado no Morro da Oficina.

Falhas atrasam benefícios

Em meio ao sofrimento pela perda de parentes, outras famílias que tiveram as casas destruídas pelo temporal enfrentam dificuldades para conseguir um novo local para viver, seja porque proprietários de imóveis têm restrições à locação para famílias com crianças e animais domésticos, seja por falhas que atrasaram o acesso ao benefício do aluguel social.

Com isso, muitos moradores estão retornando para imóveis interditados ou contam com a ajuda de amigos para pagar um aluguel.

É o caso da dona de casa Cláudia Melquíades de Morais, de 65 anos, que quase seis meses após a tragédia ainda tenta conseguir o auxílio. Ela perdeu a filha Priscila Feitosa do Nascimento, de 40 anos, o neto Arthur, de 7, o marido Levi Ribeiro, de 65, e o cunhado Leandro Antunes, de 45 anos, soterrados no deslizamento que destruiu 54 casas na Rua dos Ferroviários, na região do Morro da Oficina, no Alto da Serra, onde 93 pessoas morreram:

“Minha filha Priscila me deixou quatro netos. Hoje, eu moro numa quitinete alugada com a ajuda do pessoal da igreja, porque o aluguel social não saiu.”

A Secretaria estadual de Desenvolvimento Social informou que Cláudia Morais foi atendida no mutirão, está cadastrada e irá receber o benefício referente a agosto a partir de setembro, mais de seis meses após a tragédia.

A Secretaria de Assistência Social de Petrópolis alega que a dona de casa informou não querer vínculo com o município, e, por isso, não aceita o aluguel social da prefeitura. E o órgão encaminhou o caso para o estado.

O pagamento de aluguel social, no valor de mil reais — R$ 800 pagos pelo Estado e R$ 200 complementados pela prefeitura — foi anunciado dias após as chuvas de fevereiro.

Desencontros no sistema de cadastro e falhas no preenchimento do formulário comprometeram o processo e, quase três meses depois da tragédia, em 11 de maio, estado e município realizaram um mutirão para recadastramento.

A revalidação foi realizada até junho. Porém, sem uma previsão para a inserção dos dados no sistema da Secretaria estadual de Desenvolvimento Social e Direitos Humanos —para o efetivo pagamento — a Justiça estabeleceu, atendendo a um pedido do Ministério Público do Rio(MPRJ), um prazo de 15 dias para que as informações fossem inseridas no sistema do estado.

A pasta informou que os dados das vitimas atendidas no recadastramento foram inseridos no sistema do estado.

Segundo a secretaria, foram pagos 5.364 benefícios de Aluguel Social para moradores de Petrópolis — um total de R$ 4,2 milhões até agosto. A previsão para setembro é de que 3.131 famílias recebam, número pode que pode aumentar pois alguns cadastros ainda estavam com pendências para serem resolvidas, segundo o estado.

A prefeitura informa que está garantindo o aluguel social a 3.917 famílias que ficaram desabrigadas ou desalojadas após as chuvas de fevereiro. Os aluguéis sociais são custeados em conjunto com o estado.

Terrenos disponíveis

Com mais de 47 mil pessoas que vivem em 12 mil moradias em áreas de risco alto ou muito alto — número apontado pelo Plano Municipal de Redução de Riscos, atualizado pela prefeitura em 2017 —, Petrópolis tem quatro terrenos, destinados à construção de moradias populares, não utilizados.

Três terrenos foram desapropriados ou cedidos ao município há 11 anos, após a tragédia de 2011, quando uma enxurrada deixou 74 mortos e milhares de desabrigados na região do Vale do Cuiabá e nos distritos. Outro terreno foi desapropriado pelo município em 2013, quando deslizamentos causaram a morte de 34 pessoas no primeiro distrito.

A Secretaria estadual de Infraestrutura e Obras (Seinfra) informou que está prevista a construção de 350 unidades habitacionais nos terrenos do Mosela, de Benfica/Itaipava e do Vale do Cuiabá, ainda referentes às chuvas de 2011. A Seinfra informou ainda que aguarda resposta do município quanto a projetos para Mosela e Vale do Cuiabá, submetidos a aprovação e a licenciamento ambiental.

Já a prefeitura explica que o Grupo de Trabalho de Análise de Empreendimentos (GAE) solicitou à Seinfra, no início de julho, estudos sobre a localização e a conservação de uma galeria subterrânea de águas pluviais que atravessa um imóvel no Mosela.

A prefeitura destaca que o déficit habitacional e a ocupação de áreas de risco, algumas habitadas desde os anos 1950 e 1960, são problemas crônicos e históricos em Petrópolis.

As ações em resposta às chuvas têm sido acompanhadas pelo MPRJ. Levantamento feito pelo órgão, com base em dados da Secretaria Municipal de Defesa Civil e Ações Voluntárias e do Departamento de Recursos Minerais do Estado (DRM), aponta para a existência de 106 locais que precisam de obras de recuperação após as chuvas.

Dados atualizados esta semana pelo MPRJ mostram que, quase seis meses após a última tragédia, ainda há 65 locais sem definição sobre o responsável pelas obras, entre os quais o Morro da Oficina, epicentro da tragédia, onde 93 pessoas morreram e um jovem continua desaparecido.

Plano desatualizado

O mapeamento aponta que apenas 41 obras estão distribuídas entre estado e município: 18 de grande porte, sob a responsabilidade do estado, e 23 a cargo do município.

O MPRJ também requisitou que a prefeitura atualize o Plano Municipal de Redução de Riscos, que apontava até 2017 a existência de 234 áreas de risco alto ou muito alto nos cinco distritos, cenário visivelmente modificado após as tragédias deste ano.

Desde fevereiro, a prefeitura recebeu R$ 41,5 milhões em recursos para ações em resposta à tragédia, sendo R$ 298 mil em doações pela conta Petrópolis solidária; R$ 30 milhões da Assembleia Legislativa e R$ 11,2 milhões em repasses federais.

O município também anunciou que conseguiu a liberação de uma linha de crédito de R$ 100 milhões da Caixa Econômica. O estado informou que estão sendo investidos R$ 515 milhões em obras de recuperação em Petrópolis.

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Polícia interdita casa de repouso por tortura e sequestro de idosos

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Polícia interdita casa de repouso por tortura e sequestro de idosos
Reprodução 08/08/2022

Polícia interdita casa de repouso por tortura e sequestro de idosos

A Polícia Civil do Rio interditou, neste domingo (7), uma clínica de repouso para idosos, após denúncias de maus-tratos. Agentes da 35ª DP (Campo Grande) receberam os relatos de estagiários da Casa de Repouso Laço de Ouro, em Guaratiba, na Zona Oeste do Rio, e foram ao local checar as informações. Ao chegar no estabelecimento, os policiais encontraram o local em péssimo estado, inclusive com idosos com fome.

Parentes relataram dificuldade para fazer visitas aos internos. Três pessoas foram presas em flagrante: a dona da casa de repouso, Vanessa da Silva Ferro, e dois funcionários, Manoel Alves Paulino e Rafael Venâncio. A autuação foi pelos crimes de tortura, sequestro e cárcere privado e e maus-tratos contra idoso.

Durante a noite de domingo, profissionais da prefeitura do Rio estiveram na casa de repouso avaliando o estado de saúde dos 29 idosos que estavam no local. Após a avaliação médica, as equipes de assistência social irão entrar em contato com os parentes para saber se eles possuem condições de recebê-los. Caso contrário, serão levados a abrigos públicos.

Um paciente foi transferido em estado grave para a UPA de Campo Grande, com úlcera por pressão (lesões na pele por ficar muito tempo numa mesma posição). Outro idoso foi levado para o Hospital Municipal Rocha Faria. Há suspeitas de que ele tenha uma infecção. O paciente foi hospitalizado para a realização de mais exames. Os demais idosos passaram por triagem mas não houve necessidade de transferi-los para uma unidade de saúde.

Cheiro de urina e internos magros

Um video obtido pelo GLOBO gravado no interior da casa de repouso, por volta das 15h deste domingo, mostra uma idosa afirmando que não havia tomado café, estava com fome e que a comida era “horrível”. Agentes que entraram no local contaram ao GLOBO que no local havia um forte cheiro de urina em diversos ambientes e que alguns idosos estavam demasiadamente magros.

O caso foi denunciado por estagiários que trabalham na casa de repouso. Um deles teria ouvido o relato de um idoso cadeirante de que ele já havia recebido um tapa no rosto de um dos funcionários. A Laço de Ouro tinha um alvará vencido desde 2015, e um pedido de 2021 para renovação, que não foi atendido.

A Polícia Civil investigará também as denúncias de que a clínica medicava os idosos com remédios controlados para mantê-los dopados. Caso o estabelecimento não tenha as receitas médicas com a indicação dos medicamentos, os responsáveis podem responder por tráfico de drogas.

Na entrada da casa de repouso, na noite deste domingo, parentes de um idoso que está internado há dez anos no local se mostraram surpresos com as denúncias. Assim que soube que o local havia sido fechado, Samuel Milanos, cunhado de um paciente, foi à Laço de Ouro saber o que tinha ocorrido. Ele afirma que nunca percebeu haver maus-tratos no local:

“Há pouco tempo, foi o aniversário dele e nós viemos vê-lo. Se precisar, vamos levá-lo de volta para casa”, disse Milanos.

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Fonte: IG Nacional

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